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A História do Calção.

Em um belo domingo, cinco boias-frias saem do árduo trabalho e vão a uma praia no nordeste. Ao chegar, um rapaz chamado Piróca deixa os quatros amigos à beira-mar e sai em direção à venda para comprar algumas cervejas. Na venda o proprietário não deixa Piróca levar as cervejas, pois não trouxe as garrafas para a troca. Então ele pergunta ao dono como poderia levar as cervejas. O proprietário sugere que deixe aqui um calção - cheque de garantia no valor - e, assim, ele poderá levar as cervejas. Piróca, indignado, sai furioso da venda sem comprar algo. Os amigos dele o receberam-no perguntando o porquê da demora e de não ter trazido nenhuma cerveja. Ele explicou o que aconteceu e todos ficam abismados. Piróca pergunta ao pessoal se algum deles pode emprestar-lhe uma cueca para deixar meu calção na venda. Porém, de todos os amigos, o único que estava de cueca era um velho e estava tão velha que mais parecia um pano de chão. Sem alternativa, Piróca aceitou e foi buscar as bebidas. Após duas horas dele ainda não ter retornado, seus amigos estavam se perguntando o porquê dele estar demorando tanto. Enfim resolvem sair em busca dele. O grupo não o encontra em nenhuma parte da cidade até decidirem dirigir até pequena venda. Eles perguntam ao amigo ao proprietário se por acaso veio aqui um rapaz de uns 20 anos bem magro com olhos azuis comprar cerveja no estabelecimento. Eis que o dono da venda aparece, olha para todos e responde: “Não me lembro. Mas não tem muito tempo que um moleque veio aqui só de cueca com as bolas de fora e um calção na mão. O rapaz fez uma tremenda confusão aqui dentro. As mulheres saíram gritando e chamaram os policiais para levá-lo a delegacia. Eu acho que se tratava de um tarado. Tomara que as autoridades tenham dado uma surra nele”.

História do Pé Grande.

Uma história contada pelos moradores do Balneário do Hermenegildo, um povoado no extremo sul do Rio Grande do Sul. Durante um almoço cedido pelo Sr. Edeir, conversávamos sobre lendas locais e ele me falou sobre várias pessoas que foram atacadas logo adiante uns 40 km ao norte, perto do farol fronteira aberta. Várias pessoas já ouviram gritos ao se aproximarem naquela região. Após ouvir a história, fiquei um pouco impressionado. Agradeci pelo almoço e segui minha viagem, saindo por volta do meio-dia, após andar 40 km em 8 horas, fiquei exausto. Então decido montar acampamento na praia. Ponho minha mochila no chão e retiro a barraca, comida, chinelos, etc. Olho para as dunas e percebo que tenho mais uns 30 minutos de luz do dia, mas algo chama minha atenção. O local está rodeado de pegadas maiores que de minha bota 44. Recordo a história do Sr. Edeir, mas isto deve ser uma brincadeira de mau gosto. Aquilo não era possível. Andei por várias horas e ninguém passou por mim, e tenho certeza que este lugar é deserto. Será que alguém quer me pregar uma peça? Observando bem, pude notar que as pegadas que saem à beira-mar rodeiam minha volta e seguem em direção as dunas. Decido ir até as dunas para ver se encontro alguma resposta para aquele absurdo que estava vendo. Após andar cem metros e subir na duna, vejo uma restinga onde as pegadas somem no meio da pequena mata. Mal pude observar o local e acabei ouvindo gritos e mais gritos. Saindo do meio da restinga, não pensei em nada. O pavor tomou conta de mim. Saí correndo, como um louco rolando pela duna, até alcançar a minha mochila. Não consegui pegar tudo, jogo o que pude dentro dela e corro em direção ao mar. Com a água na cintura, olho para trás em uma busca frenética procurando por um monstro no horizonte. Penso que, se este bicho aparecer, largo minha mochila e saio nadando até São Paulo. Fico paralisado por longos e infinitos 60 segundos. Não vendo nada, sigo um pouco mais a frente saindo do mar e começo a correr como um louco para o norte, olhando para trás para ver se não estava sendo seguido. Após uma hora de corrida e quebrando todos recordes mundiais de longa distância com mochila, procuro um lugar para me abrigar do “monstro”. Localizo uma cabana com a luz de minha lanterna. Arrombo a porta e me abrigo no seu interior ainda apavorado e com medo que o monstro me localize pelo cheiro do meu suor. Decido abrir o saco de dormir e me fecho dentro dele. Parecendo uma sauna seca por estar dormindo todo suado, com um olho aberto e o outro fechado, mal consigo dormir a espera do amanhecer. Mal o dia surgiu, pego o que restou de minha mochila e continuo a viagem. Após andar por horas chega o meio-dia. Estou com fome e já faz um dia que não ponho algo na boca. O pior é que toda minha comida que estava em um saco deve ter se soltado da mochila devido à correria, além de outros objetos que perdi. Por volta das duas horas da tarde, já tinha visitado varias casas e vilarejos, e todos estavam abandonados. Não consigo comida em lugar nenhum. Começo a andar cada vez mais devagar. Ao ver o mapa, o farol de Albardão será o único lugar habitado onde poderei encontrar comida. Após andar mais algumas horas avisto o farol, mas ainda está longe, uns 15 km de distância. Continuo a andar cada vez menos, até que avisto algo que chamou minha atenção: uma vaca pastando. Começo a ficar com água na boca e imagino uma picanha na manteiga uma carne de panela. Mal aprecio minha fantasia e a vaca já percebe minhas más intenções, acabou correndo em disparada bem longe de mim. Como já estava com dor de cabeça de tanta fome, decido comer o que a vaca estava comendo. Capim. Isto mesmo. Recolho várias mudas de capim e um punhado de raízes e lavo-as no mar para dar um gosto mais saboroso e começo meu banquete, que por sinal foi o mais horrível de minha vida. Fico satisfeitíssimo com o jantar e continuo a caminhada em direção ao farol. Depois de quatro horas, chego próximo ao farol e percebo que uma cerca o protege. Tento passar por baixo e acabo recebendo um choque. Que adorável surpresa! A cerca está eletrificada. Tenho que dar a volta até achar a entrada do farol. Com minhas energias recarregadas, passo pelo portão e procuro pelos moradores. Não foi preciso procurar muito. Uma menina de cinco anos sai gritando: “Mãe, tem um homem lá fora”. Em poucos instantes, uma mulher e seu marido aparecem e me perguntam o que eu fazia por aqui. Faço um resumo da viagem e peço qualquer coisa para comer. Então eles me trazem bolo e refrigerante. Nem senti o gosto do bolo, pois o devorei em segundos. Percebendo minha fome, o homem, que é sargento da marinha, pergunta se gostaria de passar a noite no farol e ficar para o jantar. Sem pensar e com a boca cheia de bolo respondo "sim". No jantar começo a explicar para o sargento da marinha toda a história que resultou na minha presença em sua casa. Mal acabo de contar tudo e o sargento cai na gargalhada. “Lenda do pé grande!”, ele me responde. “Então este é o monstro que ouço tanto falar por aquelas bandas. Não é monstro, é um bando de macaco Bugio, que foi abando por algum fazendeiro e que conseguiu sobreviver naquela região. O macaco Bugio é um animal que defende seu território no grito”. Então pergunto sobre as pegadas. Ele me disse: “O macaco deve brincar perto da praia e, molhado, fazem suas pegadas aumentam de tamanho na areia. O vento ajuda ainda mais em aumentá-las”. Fiquei furioso. Quer dizer que um bando de macacos pregou uma peça em mim. Fiquei trinta horas sem comer nada além de capim, e para completar levei um baita choque. Lendas, assim é que elas surgem. Onde vários fatos ocorridos em uma mesma região tornaram-se uma história cheia de mistérios e ficções.

A História do Totá.

Em uma cidade do litoral, os novos vereadores fazem uma reunião de uma hora. Após o termino, um deles procura o prefeito desesperadamente e denuncia o roubo a prefeitura. Alertou também sobre um funcionário fantasma que ganha um salário altíssimo e tem o apelido de Totá. Com garantia de que o denunciante poderia provar o que disse, o prefeito decidiu marca uma reunião com todos os vereadores no dia seguinte. Zé, o vereador do tal fato, entra na sala de reunião. Em suas mãos, uma lista contendo o nome do funcionário fantasma. Após examinar a lista, o prefeito olha furioso para todos e responde: “Zé, seu bicho ignorante! Não é Totá, é Total." A lista com o suspeito na verdade era uma lista com o salário de todos os vereadores da cidade, o Tóta mencionado era na verdade a soma de todos os salários (Total). Zé não entendendo nada, pergunta ao prefeito: “Senhor, eu moro nesta cidade há 40 anos e não conheço este tal de Totá ou Total. Afinal, porque ele ganha mais que todo mundo nesta cidade”?

 

A História dos Olhos Verdes.

Esta história ocorreu no norte da Bahia. Seguindo minha viagem, me deparo com o rio que desemboca no mar. Como de costume procuro um pescador para me atravessar para a outra margem, mas não avisto ninguém. Então, decido dar a volta pelo asfalto. Estava muito quente, acho que uns 30° C. Mas não havia jeito. Para desviar do rio tinha que percorrer 15 km no asfalto até localizar a entrada da cidade mais próxima. Foi quando na pista percebo que uma família vinha em minha direção. Era um casal com uma criança no colo e outra sendo puxada pelas mãos. Alguns passos depois o homem me abordou perguntando se não tinha alguma comida para dar. Percebi que ele tinha grandes marcas no rosto, uma pele muito seca com vários vincos profundos marcados pela falta d'água. A mulher também tinha a mesma aparência. Suas roupas mostravam claramente que não tomavam banho há meses, por isso que o cheiro era muito forte. O que mais chamou atenção era a criança que estava sendo puxada pelos braços. Uma menina de aproximadamente oito anos e com lindos olhos verdes, os mais nítidos que vi em minha vida. Ela está exausta de tanto andar naquele asfalto quente e, o mais surpreendente disso, é que ela está descalça assim como o casal e a outra criança. Não tive dúvida que estavam desesperados por comida. Então retiro de minha mochila água, salgadinhos, bolachas e algumas frutas e os entreguei a eles. A criança começou a chorar, mas nenhuma lágrima desceu em sua face. O homem não parou de me agradecer e a mulher molhava em sua boca a bolacha e dava para a criança que estava no colo. Pergunto ao homem de onde eles vinham. Ele me responde que tiveram que largar as terras onde havia uma pequena plantação para procurar trabalho e comida em outra região, pois no interior da Bahia a seca tinha acabado com tudo. Disse também que estão há sete dias na estrada sem nenhuma direção em busca de trabalho. Nesta hora alerto a eles de uma cidade próxima, coisa de uns 15 km, que eles poderiam ir até lá. Foi quando percebo aproximação de um ônibus. Dou sinal para o motorista parar e pedi para deixar aquela família na cidade mais próxima. O motorista notou que aquela família não teria condições de pagar a passagem e perguntou quem iria pagar. Então saquei de minha carteira R$ 50,00 entreguei para o homem e lhe disse: “Meu senhor, pegue este dinheiro para poder pagar as passagens e, na cidade, procure um lugar para comer e alimentar estas crianças”. O homem começou a me agradecer com tantas palavras que seu choro não foi contido, mas o motorista do ônibus insistia para subirem rápido, pois a pista mal tinha acostamento. O homem e sua família entraram no ônibus. A criança foi a última a entrar, sem deixar de me olhar. Eu podia sentir nos seus olhos um obrigado que tocou minha alma. Logo que o ônibus partiu não consegui me controlar, uma emoção invadiu meu coração e começo a chorar.  Chorei tanto que tive que sentar no meio fio, um choro que me deixou completamente arrasado. Não conseguia aceitar que no meu país isto pudesse acontecer, pessoas passando fome, fome. Uma palavra que eu sei muito bem o quanto dói dentro da gente. Eu senti a fome deles dentro do meu corpo. Após alguns minutos me levanto do meio fio e continuo minha viagem. Penso comigo mesmo: “Deus! Meu pai! Obrigado por me colocar no caminho desta família e por me dar condições de ajuda-los”.

 
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